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Golpes com inteligência artificial: deepfake, voz clonada e como se proteger

Golpistas já copiam vozes e rostos com poucos segundos de material. Veja como funcionam os principais golpes com IA, os sinais que denunciam a fraude, 10 medidas para se proteger e o que fazer se o golpe já aconteceu.

Por Redação Zatto Digital · 10 min de leitura

Ilustrações de golpe de voz clonada, deepfake em videochamada e proteção digital contra golpes com inteligência artificial

O telefone toca, e do outro lado está a voz do seu filho, aflita, pedindo um Pix urgente. A voz é igual, o jeito de falar também. Só que não é ele. Com ferramentas de inteligência artificial, golpistas já conseguem copiar vozes e rostos com poucos segundos de material, e esse tipo de golpe se espalhou pelo Brasil.

Segundo o Mapa da Fraude da Serasa Experian, divulgado em junho de 2026, 51% da população economicamente ativa do país já foi vítima de algum golpe. No primeiro trimestre de 2026, houve uma tentativa de fraude a cada 5 segundos, e a empresa aponta a IA generativa, os deepfakes e o uso de voz e imagem de pessoas conhecidas entre os fatores por trás desse aumento.

Neste guia você vai entender como funcionam os principais golpes com IA, quais sinais denunciam a fraude, como proteger você e a sua família, e o que fazer se o golpe já aconteceu.

Resumo rápido

  • Golpistas usam IA para imitar a voz e o rosto de pessoas conhecidas e pedir dinheiro com urgência.
  • Pressa, segredo e Pix para a conta de outra pessoa são os sinais mais comuns de golpe.
  • A proteção mais eficaz é simples: desligue e ligue de volta para o número que você já conhece.
  • Combine uma palavra-código com a sua família para confirmar emergências.
  • Se cair no golpe, avise o banco na hora e peça a devolução pelo MED do Pix.

Como a inteligência artificial mudou os golpes

Golpes por telefone e mensagem existem há décadas. O que a IA mudou foi o realismo e a escala. Antes, o golpista precisava imitar a voz de alguém e torcer para a vítima não perceber. Hoje, ferramentas disponíveis na internet fazem esse trabalho.

Uma pesquisa da McAfee com 7 mil pessoas em nove países, incluindo o Brasil, mostrou que cerca de 3 segundos de áudio foram suficientes para criar um clone com 85% de semelhança com a voz original. Na mesma pesquisa, 70% dos entrevistados disseram não ter certeza de que conseguiriam diferenciar uma voz clonada de uma voz real. E esse levantamento é de 2023: as ferramentas melhoraram muito desde então.

A IA também acabou com um dos sinais clássicos de golpe: os erros de português. Mensagens falsas de bancos, lojas e órgãos públicos agora chegam bem escritas, no tom certo e personalizadas com o nome da vítima.

Golpe da voz clonada

Ilustração de uma senhora preocupada atendendo uma ligação do filho enquanto um golpista usa um programa de clonagem de voz

É a versão com IA do antigo golpe do falso parente. O golpista consegue alguns segundos da voz de uma pessoa, cria um clone e usa essa voz para pedir dinheiro a familiares e amigos.

Como funciona:

  1. Coleta da voz. O áudio vem de vídeos publicados em redes sociais, stories, áudios encaminhados no WhatsApp ou até de uma ligação em que a vítima fala "alô, quem é?".
  2. Criação do clone. Com programas de clonagem, o golpista digita o texto e a ferramenta fala com a voz copiada.
  3. A abordagem. A família recebe uma ligação ou um áudio, muitas vezes de um número novo, com uma história de emergência: acidente, prisão, assalto, celular quebrado ou uma conta que precisa ser paga hoje.
  4. O pedido. A "vítima" pede um Pix, quase sempre para a conta de outra pessoa, com uma desculpa para isso, e pede segredo.

Existe também uma versão corporativa: o falso chefe. Um funcionário do financeiro recebe um áudio com a voz do dono da empresa pedindo um pagamento urgente a um "fornecedor". Pequenas empresas, em que todo mundo conhece a voz do dono, são alvos frequentes.

Deepfake: vídeos e videochamadas falsos

Ilustração de um homem desconfiado durante uma videochamada com um rosto gerado por inteligência artificial, controlado por um golpista

Deepfake é um vídeo, foto ou áudio manipulado por IA para mostrar uma pessoa dizendo ou fazendo algo que ela nunca disse nem fez. Nos golpes, ele aparece de três formas principais.

Famosos em anúncios falsos

Vídeos com apresentadores, jornalistas, artistas e até autoridades recomendando investimentos com retorno garantido, sorteios, remédios "milagrosos" ou supostos benefícios do governo. O rosto e a voz são reais, mas a fala foi criada por IA. O anúncio leva a um site falso que pede dados pessoais ou um pagamento.

Videochamadas falsas

O golpista faz uma chamada de vídeo curta, geralmente com imagem ruim e conexão "instável", usando o rosto de um parente, de um chefe ou de um funcionário do banco. A chamada serve para passar confiança e logo cai, e o pedido de dinheiro chega em seguida por mensagem.

Montagens íntimas para extorsão

Criminosos usam fotos comuns, tiradas de redes sociais, para criar imagens íntimas falsas e ameaçar a vítima de divulgação se ela não pagar. Se isso acontecer com você ou com alguém próximo, não pague. Guarde as mensagens, registre um boletim de ocorrência e denuncie o perfil na plataforma. Pagar não garante que as ameaças param.

Outros golpes turbinados por IA

  • Mensagens falsas sem erros. E-mails, SMS e mensagens de WhatsApp imitando bancos, lojas, Correios e órgãos públicos, agora escritos com perfeição.
  • Sites e anúncios falsos. Lojas falsas com fotos e descrições geradas por IA e preços muito abaixo do mercado. A Serasa identificou 37,85 mil anúncios, perfis, páginas e aplicativos falsos em 2025, o equivalente a cerca de quatro sites falsos criados por hora.
  • Perfis falsos e golpe do amor. Fotos geradas por IA e conversas convincentes criam relacionamentos virtuais que, semanas depois, terminam em um pedido de dinheiro.
  • Falso atendente de banco. Ligações com vozes geradas por IA, música de espera e protocolo, que pedem para você "confirmar" dados, instalar um aplicativo ou transferir dinheiro para uma "conta segura".
  • Vagas de emprego falsas. Entrevistas por vídeo e mensagens que parecem de recrutadores reais e terminam com a cobrança de uma taxa ou o pedido de documentos.

Sinais de alerta: como reconhecer um golpe

A tecnologia muda, mas o roteiro do golpe quase sempre é o mesmo. Desconfie quando aparecer um ou mais destes sinais:

  • Urgência. "Tem que ser agora", "não dá tempo de explicar".
  • Segredo. "Não conta para ninguém", "não fala para a mãe".
  • Dinheiro para a conta de outra pessoa. O pedido é sempre para um terceiro, com alguma desculpa.
  • Número novo. "Troquei de número", "estou no celular de um amigo".
  • Fuga da confirmação. A pessoa não pode ligar de volta, a chamada de vídeo cai ou ela muda de assunto quando você faz perguntas.
  • Pedido de código ou senha. Nenhum banco, loja ou órgão público pede o código que chegou por SMS.
  • Oferta boa demais. Retorno garantido, desconto absurdo ou prêmio que você não lembra de ter disputado.

E dá para perceber um deepfake pelo vídeo? Às vezes. Fique atento a boca fora de sincronia com a fala, piscadas estranhas ou ausentes, bordas do rosto borradas, iluminação diferente entre o rosto e o fundo, e voz sem emoção ou sem respiração. Mas não conte só com isso: as ferramentas melhoram rápido. A forma mais segura de confirmar é por outro canal, como explicado a seguir.

Como se proteger: 10 medidas práticas

Ilustração de uma mulher protegida por um escudo digital contra voz falsa, deepfake e perfil falso
  1. Combine uma palavra-código com a família. Escolha uma palavra ou frase que só vocês conhecem e que não aparece nas redes. Em qualquer pedido de emergência, peça a palavra.
  2. Desligue e ligue de volta. Recebeu um pedido estranho? Encerre a conversa e ligue para o número que você já tinha salvo da pessoa, nunca para o número que entrou em contato.
  3. Faça uma pergunta que só a pessoa saberia. O nome do primeiro cachorro, onde passaram o último Natal. Um clone de voz não sabe responder.
  4. Ative a verificação em duas etapas no WhatsApp. Em Configurações › Conta › Confirmação em duas etapas, crie um PIN. Isso dificulta que alguém clone a sua conta e fale com os seus contatos no seu nome.
  5. Silencie ligações de desconhecidos. No WhatsApp, em Configurações › Privacidade › Ligações, ative a opção que silencia números que não estão na sua agenda.
  6. Feche o seu perfil nas redes sociais. Limite quem vê suas fotos, vídeos e stories. Quanto menos material público com a sua voz e o seu rosto, mais difícil fica clonar.
  7. Atenda números desconhecidos em silêncio. Espere a outra pessoa falar primeiro. Ligações mudas podem servir para gravar a sua voz.
  8. Reduza seus limites de Pix. No aplicativo do banco, diminua o limite de transferências, principalmente à noite. Assim, mesmo que você caia em um golpe, o prejuízo fica menor.
  9. Desconfie de famosos vendendo coisas. Viu um vídeo de uma celebridade recomendando um investimento ou produto? Procure a informação no perfil oficial da pessoa ou em um site de notícias antes de clicar.
  10. Converse com a sua família. Pessoas mais velhas e adolescentes são alvos frequentes. Compartilhe este guia e combine as regras da família para pedidos de dinheiro.

Caí no golpe: o que fazer agora

Agir rápido aumenta muito a chance de recuperar o dinheiro. Siga estes passos, na ordem:

  1. Avise o seu banco imediatamente. Use só os canais oficiais: aplicativo, telefone que está no verso do cartão ou agência. Informe que foi vítima de golpe e peça a abertura do MED.
  2. Peça a devolução pelo MED do Pix. O Mecanismo Especial de Devolução, do Banco Central, serve para recuperar valores enviados em casos de golpe ou fraude. Desde outubro de 2025, os bancos devem permitir que o pedido seja feito pelo próprio aplicativo, sem precisar falar com um atendente. Segundo a Agência Brasil, a vítima tem até 80 dias a partir da transação para fazer o pedido, mas quanto antes, melhor. A devolução depende de ainda haver dinheiro na conta do golpista.
  3. Guarde todas as provas. Faça prints das conversas, salve os áudios, anote os números de telefone e guarde os comprovantes de transferência.
  4. Registre um boletim de ocorrência. Pode ser feito pela delegacia virtual do seu estado, sem sair de casa. Envie uma cópia ao banco.
  5. Avise os seus contatos. Se usaram o seu nome, voz ou foto, avise amigos e familiares para que não caiam no mesmo golpe, e denuncie o perfil falso na rede social ou no WhatsApp.
  6. Troque as senhas e acompanhe as contas. Se você passou dados ou códigos, troque as senhas do banco, do e-mail e das redes sociais. Consulte o Registrato, do Banco Central, para ver se abriram contas ou empréstimos no seu nome.

O Ministério da Justiça mantém a página Sofri um golpe, e agora?, com orientações para cada situação, como perdas financeiras, conta de rede social clonada e celular roubado.

Cair em golpe não é motivo de vergonha

Os golpes com IA são feitos para enganar qualquer pessoa, inclusive quem entende de tecnologia. Contar o que aconteceu ajuda a recuperar o dinheiro mais rápido e impede que outras pessoas caiam no mesmo golpe. E lembre-se: golpe pela internet é crime de fraude eletrônica, com pena de prisão.

Perguntas frequentes

Dá para clonar a minha voz a partir de um áudio de WhatsApp?

Sim. Poucos segundos de áudio podem ser suficientes para criar um clone convincente. Por isso, cuidado com áudios públicos e com ligações de números desconhecidos.

Como saber se um vídeo é deepfake?

Observe a sincronia da boca, as piscadas, as bordas do rosto e a iluminação. Mas a forma mais confiável é confirmar a informação por outro canal: o perfil oficial da pessoa, um site de notícias ou uma ligação para um número conhecido.

O banco é obrigado a devolver o dinheiro?

Não necessariamente. O MED aumenta a chance de recuperar o valor, mas a devolução depende de haver saldo na conta que recebeu o dinheiro. Por isso, avisar o banco nos primeiros minutos faz tanta diferença.

Os golpistas estão ameaçando divulgar uma montagem falsa minha. Devo pagar?

Não. Pagar não garante que as ameaças param e costuma gerar novos pedidos. Guarde as provas, registre um boletim de ocorrência e denuncie o perfil na plataforma.

Idosos são os principais alvos?

São alvos frequentes, mas não os únicos. Os golpes atingem todas as idades. Por isso, a palavra-código e a regra de ligar de volta valem para toda a família.

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